Ao nascer do Sol
Ao nascer do Sol
Eram 7:15h. Ainda ninguém estava na praia. Parecia tudo adormecido, mas a coloração do horizonte
anunciava transformação. Chegamos!
E gradualmente, em ritmo lento, vislumbram-se os contornos das dunas, dos edifícios e dos, ao longe. Um barquito está no mar. Parece parado, aguardando. Um outro navega já, indiferente ao que acontece à sua volta.
Um grupo de amigos acomoda-se para participar do início milagroso do novo dia.
À espera do sol
Estavam preparados para entoar uma canção ao sol. Todos já a sabiam – quase todos: Inês não a conseguira memorizar. Conhecia o significado da melodia, repetia-o mentalmente e sentia-o no coração, mas as palavras, essas, quando as dizia, saíam atropeladas, desordenadas. Memorizar exigia de si um esforço imenso. Se para cantar esta melodia se usasse apenas o sentir, Inês estava em primeiro lugar! Entoava-a dentro de si, emocionada.
O sol anunciava a sua chegada com uma luminosidade cada vez mais intensa, até se manifestar em toda a sua grandiosidade. Os raios dispersavam-se atravessando as nuvens e envolvendo tudo nos seus múltiplos recantos.
Passos na areia
A Luísa caminha na areia, apoiando-se no Daniel. As suas pernas não permitem avançar sem ajuda, e sempre que levanta o pé precisa de reajustar a sua posição antes de o pousar. Caminha apoiando-se num braço forte que acompanha o seu passo. Avança com um sabor a vitória. O seu corpo balança ao ritmo do esforço, mas o sorriso transparente faz esquecer a tensão a que os músculos estão obrigados. Não se vê revolta ou desistência, face às dificuldades de se manter em pé. Quando se desequilibra e cai, ri por ter sido “desajeitada” e volta à caminhada, com um olhar maroto e um sorriso compensador. Sorri e agradece à mãe por ser “a fada boa”, agradece ao Daniel por estar ali ao seu lado, à areia por lhe permitir caminhar, aos pés por estarem a obedecer, ao sol por a aquecer, ao mar por ser tão azul e lhe acariciar as pernas cansadas, aos amigos por estarem ali a alimentar o seu riso.
Na duna, o grupo de amigos inicia a sua melodia ao sol. Inês também inicia, mas, mais uma vez, as palavras acotovelam-se e mudam de lugar. O maestro pede um tempo para que Inês repita até memorizar. O grupo aguarda. Inês repete, repete, e o baile das palavras continua. Inês repete, os amigos aguardam e uma lágrima e depois outra. E Inês repete, e repete, mas ainda não está bem!
O sol escala as nuvens afagando de forma calorosa e brilhante todos os que o esperam. O barco parado pôs-se já em marcha depois de ter sido banhado com os raios do astro-rei.
E Inês repete, repete, e consegue! O grupo pode recomeçar o canto ao sol, com a voz de Inês entrecortada pela emoção presente. O sol acolheu o seu canto e brilhou mais intenso. Pelo menos foi assim que o grupo sentiu.
Emoção de Inês
Olhavam sensibilizados para Inês. Acolhiam-na e partilhavam a sua emoção. Ela, com a sua insistência e reconhecimento da dificuldade, não a ocultando nem se deixando vencer por ela, derrubou em cada elemento do grupo o orgulho que impede de expor as fragilidades. Revelando as suas, assumiu a sua verdade, e gerindo-as, pôde ultrapassá-las e transformá-las em força renovada. Agradece a insistência do maestro por ele ter dado visibilidade àquilo que habitualmente chamamos de fracasso, permitindo-lhe a aprendizagem que precisava para participar por inteiro na melodia ao sol.
Ficou uma necessidade: pedir desculpa ao grupo por o ter feito perder tempo. “Perder tempo?”. Estas lições demoram por vezes uma vida inteira a ser aprendidas.
Saber dizer sim
A Inês, a Luísa, o barco que aguardou pelo sol para o levar consigo na sua faina, em conjunto, os três trouxeram ao grupo uma melodia bem mais bonita do que aquela que o grupo cantou ao sol. Explicaram que ser grande é ser pequenino. Que ser grande é querer aprender. Que quando nos permitimos ser do nosso tamanho, aprendemos a grandiosidade daquilo que nos rodeia, e entramos mais profundamente na dimensão divina em nós. Com esta atitude é possível entregar-se em total confiança à vontade divina, e dizer “Faça-se em mim a Tua Vontade”, crendo verdadeiramente que essa é a alternativa de Vida que nos catapulta para a grandiosidade do nosso Ser.
Como fazê-lo?
Deus em todos
Vejamos Maria e a sua entrega total e incondicional a Deus: foi de tal forma total a Sua confiança e adesão à vontade divina que integrou Deus em si. Por inteiro! Viveu em parceria direta com Deus! UAU! E é lindo ver que esta 2parceria” não significa “anulação”, mas “maximização”. Não significa adoptar uma posição de humildade redutora, mas de verdade afirmativa face às “Maravilhas que Deus fez em Mim” (sic Maria), e usá-las no dia a dia por serem o único Projeto de Vida em que interessa apostar.
Assim, se a nossa preocupação deixar de ser o “Eu”, se substituirmos “a minha vontade” por “o meu lugar no plano de Deus”; se a nossa afirmação pessoal se orientar para “eu aprendo” em substituição de “eu sei, eu determino”, estamos a aprender a experiência de Deus em nós.
Neste Nascer do Sol, olhando Luísa, o seu sorriso, o seu caminhar e a sua aceitação amorosa e serena; testemunhando a grandiosidade da Inês que ensina a afirmação de si na aprendizagem; observando o barquito que se “enche” do sol antes de iniciar a sua faina; sentindo-nos a nós, o grupo, ser envolvidos pelos raios calorosos dele, sentimos a presença de Deus em cada ser. Deus está aqui! Dentro de mim! Fora de mim! Deus está!
Texto de Teresa Carvalho



